A Polícia Civil de Mato Grosso investiga a suspeita de que o vereador Chico 2000 tenha utilizado R$ 20 mil de propina, oriundos de emendas parlamentares destinadas a eventos esportivos em Cuiabá, para custear obras de reforma e construção da pousada Estância Águas da Chapada, de sua propriedade, localizada no km 40 da rodovia Emanuel Pinheiro (MT-251).
A suspeita consta em relatório técnico da Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor), ao qual o MidiaNews teve acesso, elaborado a partir da análise de dados extraídos do celular do parlamentar durante a Operação Perfídia. Segundo o documento, após o ingresso de recursos públicos no Instituto Brasil Central (IBRACE), foram identificados pagamentos direcionados a um construtor contratado para atuar no imóvel do vereador.
As investigações apontam que os serviços incluíram esquadrias e melhorias estruturais, especialmente em áreas ligadas ao restaurante da pousada. Conversas analisadas pela polícia mostram Chico 2000 tratando diretamente com o prestador de serviço sobre orçamentos, compra de materiais e valores de entrada para o início das obras.
De acordo com o relatório, em 7 de abril de 2025, o vereador solicitou ao construtor Jovani José de Almeida cotações de material e o valor necessário para iniciar a reforma. Horas depois, Jovani informou que o custo inicial seria de “vinte e poucos mil reais” e pediu que o pagamento fosse realizado até 9 ou 10 de abril para início imediato dos trabalhos. No dia 9, após uma ligação, o construtor confirmou por áudio que “o dinheiro acabou de cair na conta”.
A Polícia Civil constatou que, minutos antes, foi realizado um PIX de R$ 20 mil para o construtor, transferido pela empresa Sem Limite Esporte e Eventos Ltda. (Chiroli Esportes). A movimentação ocorreu no mesmo dia em que o IBRACE recebeu R$ 400 mil de emenda impositiva de Chico 2000 para a 6ª Corrida do Legislativo, reforçando, segundo os investigadores, a ligação entre o recurso público e o pagamento da obra particular. O pagamento teria sido acompanhado em tempo real pelo vereador e por seu chefe de gabinete, Rubens Vuolo Junior, identificado nas conversas como “Binho – Gabinete”.
Mensagens também indicam que João Nery Chiroli, proprietário da empresa que realizou o PIX, esteve em uma agência do Sicoob no momento da transação e avisou que estava “saindo do banco” para encontrar o vereador. Para a Polícia Civil, a sequência — destinação de emendas, repasse ao instituto, transferência à empresa organizadora e pagamento ao construtor da pousada — sugere desvio de recursos públicos para benefício pessoal. Entre novembro de 2022 e abril de 2025, o IBRACE recebeu R$ 5,48 milhões, sendo R$ 3,65 milhões (66%) atribuídos a emendas de Chico 2000. O relatório foi encaminhado à autoridade policial e deve subsidiar novas diligências e eventuais responsabilizações.

